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Família também pode magoar: quando as pessoas mais próximas nos tiram a paz

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Há uma dor muito difícil de explicar, que é sermos magoados precisamente pelas pessoas de quem mais gostamos e por quem fazemos tantos sacrifícios. Passamos a vida a acreditar que a família é o nosso porto seguro, o lugar onde podemos ser nós próprios, sem medo de sermos julgados ou rejeitados, mas nem sempre é assim. Por vezes, é dentro da nossa própria casa que ouvimos as palavras mais cruéis, que sentimos as maiores injustiças e que choramos em silêncio, porque não queremos que ninguém saiba aquilo que estamos a passar. E o que mais custa é perceber que as pessoas que melhor nos conhecem também sabem exatamente onde nos podem magoar.

Quantas vezes já ficou calada para não provocar mais uma discussão? Quantas vezes engoliu uma resposta, aceitou uma crítica injusta ou fingiu que não estava magoada, apenas para manter a paz dentro de casa? Há famílias onde parece que existe sempre alguém que tem de ceder, compreender, desculpar e resolver os problemas de todos, mesmo quando ninguém se preocupa em saber como essa pessoa se sente. Com o passar dos anos, esse esforço transforma-se num enorme cansaço emocional, porque viver constantemente a tentar evitar conflitos faz com que deixemos de nos sentir à vontade até na nossa própria casa.

Uma das situações mais dolorosas acontece quando sentimos que tudo aquilo que fazemos pelos outros nunca é suficiente. Podemos passar anos a ajudar os filhos, a apoiar o marido, a cuidar dos pais ou a resolver as dificuldades dos irmãos e, ainda assim, basta uma vez dizermos que não podemos para sermos acusados de egoísmo ou falta de amor. É nessas alturas que percebemos como algumas pessoas se habituaram tanto à nossa disponibilidade que deixaram de valorizar os nossos esforços. E custa muito reconhecer que, para certos familiares, parece que só somos importantes quando precisam de alguma coisa de nós.

O facto de alguém ser da nossa família não lhe dá o direito de nos tratar mal. Ser mãe, pai, filho, irmão ou marido não é uma autorização para humilhar, controlar, criticar constantemente ou fazer chantagem emocional. No entanto, muitas pessoas continuam a aceitar comportamentos que jamais tolerariam de um amigo ou de um desconhecido, simplesmente porque cresceram a ouvir que a família está acima de tudo e que devemos perdoar sempre. Mas perdoar não significa permitir que nos magoem repetidamente, assim como amar alguém não nos obriga a aceitar todas as suas atitudes. Podemos gostar muito de uma pessoa e, ao mesmo tempo, reconhecer que a forma como ela nos trata está a fazer-nos sofrer.

Quando os conflitos se repetem durante meses ou anos, até o ambiente dentro de casa começa a tornar-se difícil de suportar. Na tradição espiritual, fala-se muitas vezes da importância de limpar a casa de más energias, mas também é importante perceber que a paz de um lar depende da forma como as pessoas se relacionam, das palavras que escolhem e do respeito que demonstram umas pelas outras. Nenhuma prática espiritual substitui a necessidade de resolver conflitos, estabelecer limites e deixar de aceitar situações que nos fazem mal.

Nunca se esqueça de que também merece ser tratada com carinho, respeito e consideração pelas pessoas da sua família. Não tem de passar o resto da vida a tentar agradar a quem encontra sempre alguma coisa para criticar, nem de carregar sozinha problemas que pertencem a todos. Se sente que uma relação familiar lhe está a roubar a tranquilidade, comece por reconhecer aquilo que a magoa, procure apoio quando precisar e não tenha medo de estabelecer limites, mesmo que algumas pessoas não gostem dessa mudança. Porque há uma coisa que nunca deve esquecer: a família deve ser um lugar onde encontramos amor, não um lugar onde temos de sofrer para provar que amamos.

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